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A perda silenciosa dos últimos redutos de biodiversidade

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O património natural da região Centro está a desaparecer de forma gradual, difusa e, muitas vezes, invisível. Os últimos redutos de biodiversidade, que ainda subsistem num território amplamente transformado, estão hoje sob uma pressão intensa e contínua. Na ausência de proteção efetiva, a sua degradação não é uma possibilidade futura: está a acontecer, agora.

Estas áreas, embora reduzidas em extensão, concentram uma parte muito significativa da biodiversidade e dos serviços de ecossistema da região. São refúgios essenciais para espécies nativas, algumas delas endémicas, e regulam processos ecológicos essenciais, contribuindo diretamente para a resiliência dos ecossistemas locais. Ainda assim, continuam sem proteção legal e expostas a um conjunto de ameaças e más práticas que, atuando em simultâneo, estão a acelerar a sua perda silenciosa.

A expansão de espécies invasoras é uma das forças mais persistentes de transformação. Espécies como as acácias colonizam rapidamente estas áreas, sobretudo quando mal geridas, e substituem a vegetação autóctone, empobrecendo os habitats e bloqueando processos naturais de regeneração. Sem controlo, este processo é cumulativo e difícil de reverter. O corte de bosques autóctones, frequentemente realizado sem práticas criteriosas, tem vindo a degradar áreas sensíveis. Seja por iniciativa dos seus proprietários particulares ou no âmbito de ações de gestão de combustíveis, estas intervenções estão, em muitos casos, a resultar na remoção excessiva e não seletiva de vegetação, destruindo estruturas ecológicas fundamentais e deixando os ecossistemas mais frágeis, expostos e empobrecidos. A instalação de centrais fotovoltaicas e outros projetos de grande escala tem incidido sobre zonas de elevado valor natural, contribuindo para a sua fragmentação e perda de integridade. A transição energética é indispensável, mas não pode ser feita à custa dos últimos núcleos de biodiversidade quando existem alternativas de menor impacto. A pressão urbanística e a expansão de infraestruturas continuam a fragmentar o território, reduzindo a conectividade entre habitats e isolando populações de fauna e flora. Este processo progressivo compromete a viabilidade ecológica a médio e longo prazo, modificando de forma irreversível a paisagem. A proliferação de eucaliptais ilegais acentua este cenário. Para além de promoverem a homogeneização da paisagem, estes povoamentos intensivos aumentam o risco de incêndio, degradam os solos e limitam drasticamente a diversidade biológica. Os incêndios rurais, cada vez mais frequentes e intensos, continuam a funcionar como um fator de séria rutura nos ecossistemas. A sua repetição impede a recuperação natural e favorece a instalação de espécies invasoras, perpetuando ciclos de degradação.

O resultado é claro e previsível: uma degradação contínua dos últimos ecossistemas consolidados que ainda persistem, num processo progressivo de empobrecimento biológico. Perante este cenário, a inação tem consequências diretas. Cada intervenção mal localizada - mesmo quando ocorre dentro do enquadramento legal - contribui para reduzir ainda mais o pouco que resta. A escassez de mecanismos jurídicos eficazes para a salvaguarda destes espaços limita a capacidade de atuação e expõe a vulnerabilidade real destas áreas naturais essenciais.

Proteger estes redutos não é uma opção simbólica, mas uma necessidade estratégica e urgente. Estes hotspots de biodiversidade são uma fração mínima do território, mas são essenciais para garantir equilíbrio ecológico, qualidade ambiental e capacidade de adaptação às alterações climáticas. Sem medidas urgentes e concretas de proteção e gestão, esta perda silenciosa tornar-se-á definitiva.